Segundo noticiam hoje diversos jornais, e como se pode também ler no Diário Digital, um Juiz de Direito foi suspenso preventivamente das suas funções, aliás na sequência de um processo disciplinar que lhe foi concomitantemente instaurado, por ser o autor de um blog que “contém linguagem considerada como imprópria e obscena”.
Dando de barato, pelo menos para já, qual foi a instância judicial ou de quem partiu nominalmente a ordem de suspensão, e sem entrar em considerações de cariz terminológico sobre a matéria de facto que deu origem à suspensão de funções e à instauração do processo, o Apdeites procedeu a uma operação de pesquisa dos conteúdos do blog Aqui e Agora, da autoria do Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz Hélder Fráguas; tentámos, por conseguinte, identificar ou isolar alguns termos ou expressões que sejam passíveis de classificação, segundo o senso comum e corrente, como “linguagem obscena”; quanto à outra categoria ou nível, isto é, quanto à linguagem que possa ser considerada como “imprópria”, abstivemo-nos de sequer tentar localizar uma só palavra ou expressão que fosse, pelo simples facto de essa classificação ser absolutamente relativa e subjectiva, dependendo em exclusivo de quem assim a considera, porque a considera como tal, em que circunstâncias e quando.
Portanto, apenas no vastíssimo campo daquela linguagem que pode eventualmente ser considerada por alguém como “obscena”, pesquisámos os últimos 20 “posts” daquele blog. Os resultados foram, de facto, surpreendentes.
Encontrámos, por diversas vezes, palavras (de diversos enquadramentos, em tipo, género e número) como “deputados”, “computador”, “reputado”, “reputação”, “reputar”, etc.; aquilo que detectámos de mais parecido com o que a acusação de obscenidade faria supor, foi o substantivo “disputa” e o respectivo verbo “disputar”. Mas ainda assim, convenhamos, seria necessária muita ginástica mental para conseguir ler a designação em calão de “prostituta”, naquelas palavras que desgraçadamente utilizam aquele étimo como seu núcleo ou parte constituinte.
Na mesma senda de espiolhamento sistemático, tentámos localizar algo parecido com a palavra mais comummente utilizada no Português corrente, aquela que designa em apenas cinco letras as diversas formas de apresentação da matéria fecal, mas, nem assim, nada feito, não detectámos tal palavra uma única vez; o mais parecido com que topámos, em todos os textos, foi o antepositivo “mer”, como em “mero/a” ou em “meramente”, por exemplo. Da dita substância em si, nem rasto enquanto palavra “obscena”.
Numa terceira tentativa, já de certa forma em desespero de causa e fartos até à raiz dos cabelos de andar à procura de algo que lá não se encontra, verificámos se porventura não haveria nada parecido com “parir”, ou “pariu”, ou assim; mas não; nem isso; o mais parecido que lá está é “Paris Match”, mas supomos que a designação dessa venerável revista francesa não possa ser tida em conta como, propriamente, “linguagem obscena”.
Também quanto às (pouquíssimas) imagens que ilustram e abrilhantam o blog em causa, pouco ou nada haverá a dizer, na mesma perspectiva: assim de repente, há lá uma gravura de Amadeo de Souza-Cardoso que, realmente, algumas almas mais insensíveis poderão considerar como, por exemplo, particularmente feio, mas ainda assim seria necessário esticar muito a corda para ver aquele quadro do pintor como uma coisa “obscena” ou sequer “imprópria”, enquanto linguagem pictórica.
Nesta conformidade, e presumindo que aos autores da suspensão e do processo disciplinar movidos contra o referido Doutor Juiz não ocorrerá sequer a sorte de nomes que alguns lhes estarão chamando neste momento, o Apdeites está em condições de garantir que os conteúdos do blog Aqui e Agora não possuem quaisquer conteúdos menos recomendáveis, e muito menos ainda em se tratando de apuro e aprumo na linguagem - de primeira água, podemos asseverar.
Sugerimos, portanto, ao ou aos autores de tão graves acusações, e mentores de tão gravosas medidas, contra tão insuspeita pessoa, que enfiem o instrumento de cordas no saco e que se entretenham de uma vez por todas em actividades mais meritórias, como praticar actividades libidinosas com suas próprias pessoas ou procurar em suas próprias cabeças quaisquer vestígios de parasitas microscópicos, retirando-os com a ajuda do indicador e do polegar. Com o devido respeito, é claro.